terça-feira, 1 de setembro de 2020

Hélder Tsemba: a Hibernação, a poesia e a vida

 Hélder Tsemba: a Hibernação, a poesia e a vida

Hélder Tsemba estreou-se em livro, dia 25, com o título Hibernação. A proposta literária foi lançada no formato electrónico pela editora Kulera.

 

“Ia eu despedaçado pelo vento,/ Na noite de céu baço e estrelado./ Perseguindo o meu vil e triste fado/ Que desmaiava de tanto tormento.// O campo se movia sonolento/ Dum lado ao outro. E dormia o gado,/ Sem dar em conta o meu frio brado/ Que me rasgava de mui desalento.”. Assim inicia o primeiro poema do livro Hibernação, da autoria de Hélder Tsemba. Escrito entre 2011 e 2013, a obra literária tem 76 páginas, e, em ternos temáticos, explora, principalmente, a crise existencial, a angústia, a nostalgia, a solidão e a morte.  

Através de Hibernação, Hélder Tsemba quis propor um momento de introspecção, no sentido de que as pessoas devem se permitir reflectir sobre a sua própria existência e sobre a relação interpessoal. O fim disso é contribuir para que o leitor “aprenda” a conviver melhor consigo próprio, num mundo cheio de tantas adversidades. Assim, o livro funciona como uma espécie de convite para um renascimento espiritual.  

O livro de estreia de Tsemba pretende, igualmente, partilhar experiências com o leitor, de modo a que o permita identificar e superar os momentos conducentes ao suicídio. Afinal, enquanto escreveu, o autor foi libertando dor e medo da solidão. Por essa razão, a escrita dos poemas exigiu de si uma rotina rigorosa, em que o poeta teve de se privar do seu mundo exterior. “Nos dias em que escrevi o livro, senti-me como se me tivesse transformado num monge, devido ao isolamento. Nesse período, a minha rotina resumiu-se entre ler e escrever, com alguns passeios nocturnos. Meditei muito”.

Em termos formais, Tsemba interessou-se em apresentar sonetos e redondilhas menores, o que exigiu conhecer e dominar as regras métricas para a construção de poesias com aquelas características. Logo, pode adivinhar-se, nem sempre foi fácil acertar na métrica. Quer isto dizer que, para o autor, durante a escrita do livro, mais do que as palavras, a métrica apresentou-se indispensável. Como consequência, a escrita de um poema levou um tempo enorme, porque tinha de respeitar a sequência dos versos e as rimas. “Foi árduo e acho que isto reflecte aquela expressão de que, na literatura, o mais importante não é brincar com a palavra, mas trabalhar arduamente a palavra”. 

Do ponto de vista humano, esta foi uma experiência para o nosso poeta, pois aprendeu a rir das suas fraquezas, de modo que as mesmas não o podem deixar desolado. Lá está… ainda aprendeu que só se pode abraçar a liberdade quando se supera o medo da solidão.

Sem interesses categóricos, Hélder Tsemba entende que a humanidade deve hibernar, como os animais fazem, “para que possamos sobreviver. Os animais não se suicidam porque sabem hibernar”.  

Hibernação é o primeiro de dois livros que Hélder Tsemba gostaria de escrever. Sendo este de contemplação, o último deverá ser de acção ou de, usando aquela palavra já em si histórica, revolução. “A hibernação é um momento para as pessoas olharem para sua pequenez e grandeza. A hibernação só faz sentido quando há uma proposta de acção. Por isso irei escrever um livro poético de acção para orientar as pessoas a dirigirem os seus próprios destinos”.

Lançado dia 25, sob a chancela da Kulera, Hibernação está disponível em formato electrónico para download gratuito a partir da página daquela editora.

Hélder Tsemba nasceu no dia 18 de Junho de 1991, em Maputo. Descobriu sonetos e redondilhas menores, lendo autores como Luís de Camões, Rui de Noronha, Florbela Espanca e Bocage. Enquanto os lia, sentiu-se desafiado a resgatar o estilo poético que caracteriza o seu livro.  Tsemba é licenciado em Filosofia, pela Universidade Eduardo Mondlane, e é jornalista.

 

A leitura de Osvaldo das Neves

O prefácio do primeiro livro de Hélder Tsemba é assinado por Osvaldo das Neves. No seu texto, o professor universitário destaca: “O poeta experimenta um dramatismo próprio de quem se dispõe a meditar na vida, daí o reincidente apelo para o amor frustrado, a mãe ausente, a saudade duma paixão adormecida, a noite friorenta, a futilidade do tempo, a guerra interior, a solidão, a insónia, o vazio existencial. Um vazio que procura preencher pela própria escrita, feita sinédoque da arte, e pela sujeição voluntária à lei divina, apesar dessas sorumbáticas perdidas em bordéis. Eis o protótipo da época em que vivemos, como se o século XVII estivesse à nossa frente. O conflito entre a carne e o espírito que o caracterizou parece também marca da nossa subjectividade: descobertas científicas ao rubro, doenças incuráveis em todo o mundo; sofisticados dispositivos de segurança, criminalidade como distintivo internacional; meios avançados de comunicação, ausência de diálogo como recurso na resolução de conflitos; políticas de emancipação da mulher e da criança, demolição da família enquanto instituição primária de socialização; incremento da indústria alimentar, miséria aos milhares; fluxo de teoremas sobre o amor, mercantilização das relações afectivas. Para tudo isto, há que hibernar, há que revisitar o nosso propósito de vida (…)”.

 

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